Selic a 2%: o que fazer com a renda fixa?

Por: Ulisses Nehmi, CEO da Sparta Fundos de Investimento

Nos dias atuais, se alguém tossir, todos ao redor desconfiarão que é Covid-19. Pouco importa se a pessoa engasgou ou se está recuperando de um resfriado. Em praticamente todos os lugares se fala desse vírus e como isso mudou nossas rotinas, então tudo e qualquer coisa parece ter sido causado por ele, mesmo que não seja. Isto é um viés cognitivo chamado viés de disponibilidade.

Nosso comportamento está sujeito a muitos vieses cognitivos. No viés da disponibilidade nossa mente dá mais valor para as informações disponíveis do que as informações que realmente importam. 

Com investimentos, estamos sujeitos aos mesmos vieses. Não raro, aplicações são apresentadas aos investidores ao lado do retorno em 12 meses, que é a informação disponível, quando a informação importante vem apenas nas letras miúdas: desempenho passado não é garantia de desempenho futuro. De certa forma, todos sabemos que nessa abordagem é improvável que o investidor escolha as opções que tiveram os piores retornos. Parece um insulto intelectual. Ao mesmo tempo, por terem sido apresentadas apenas algumas informações, nossa mente é levada a crer que aquelas são as informações importantes.

Quando o investidor é perguntado sobre o que fazer com a renda fixa se a Selic está em 2%, parece implícita uma sugestão para fugir da renda fixa para ativos de risco. Essa é a pergunta que mais tenho escutado, mas não poderia estar mais errada, e por vários motivos.

Primeiro que renda fixa significa que existem um prazo e uma forma de cálculo do rendimento definidos. E em qualquer lugar do mundo, a renda fixa tem um papel importante na carteira dos investidores justamente por causa dessas características.

Segundo que os investimentos pós-fixados, corrigidos pela Selic, são apenas uma das modalidades. Enquanto os títulos públicos desta modalidade têm foco na liquidez, e por isso o retorno é equivalente à taxa Selic, os títulos privados podem trazer remunerações bastante atrativas, embora com uma liquidez menor. 

Os investidores estão acostumados a associar o termo renda fixa à ausência de risco por razões históricas: sempre tiveram muita oferta de fundos DI, poupança e CDB dos bancos comerciais. Existem, no entanto, outras modalidades tão ou mais importantes, como o pré-fixado e o indexado à inflação, e que geralmente tem retornos muito mais significativos. No Tesouro Direto é possível comprar um título pré-fixado de 5 anos com retorno de cerca de 6,5% ao ano. O que diferencia as modalidades é a forma como esse retorno será calculado ao longo do tempo.

A mudança de perfil de risco da carteira em direção a ativos de maior risco por conta do nível da Selic é outro erro. A construção de uma carteira de investimentos diversificada não depende do preço atual de nenhum ativo. Nem da Selic, nem do Ibovespa, nem do dólar, nem do crédito privado, nem dos fundos imobiliários. 

Essencialmente, ela depende do perfil de tolerância a risco do investidor, do seu horizonte de investimento e da sua necessidade de liquidez. A ilusão de controle pode ser confortável e os exercícios de futurologia por vezes são intelectualmente estimulantes, mas o investidor inteligente sabe que o futuro é incerto. Basta preparar sua carteira para isso. 

Assim, o investidor com uma carteira equilibrada terá parcelas com papéis distintos e complementares. A renda fixa é a base de qualquer carteira, e não teria como ser diferente. Na parcela pós-fixada, o foco é a previsibilidade e liquidez, para dar flexibilidade nas alocações (ou retiradas) e estabilidade na carteira. 

Na parcela pré-fixada ou indexada à inflação, esperam-se retornos mais elevados, ainda que com menor liquidez. Na renda variável, esperam-se retornos maiores, mesmo com oscilação ao longo do tempo. Ativos com moedas, geografias, tributação ou frequência de pagamentos diferentes, entre outras características, podem e devem ajudar a diversificar a carteira, tornando-a robusta para enfrentar de euforias a pandemias.

Então vamos ajustar a pergunta do título para a correta: como a Selic a 2% muda os investimentos em renda fixa?

Apesar de contraintuitivo, essa é uma excelente notícia.

Se antes era possível ter carteiras com retornos nominais elevados praticamente sem oscilações, esses tempos ficaram no passado. As oscilações fazem parte da vida dos investidores, inclusive na renda fixa, e são essenciais para corrigir distorções, geram oportunidades e mantêm o mercado em funcionamento saudável. Um entendimento correto desses movimentos deve trazer noites de sono mais tranquilas, além de retornos mais elevados. E é sempre bom lembrar da característica principal da renda fixa: os preços sempre convergem no vencimento para o valor pré-definido.

Além disso, a velocidade e a intensidade da queda da Selic nos últimos meses fomentaram um desenvolvimento sem precedentes do mercado de capitais. Multiplicam-se as opções de investimento e diversificação, e mercados gigantescos passaram a florescer da noite para o dia. 

Na renda fixa podemos citar como exemplo a remuneração pelo risco de crédito, que nunca foi tão elevada, trazendo esse mercado mais próximo as realidades praticadas nos mercados no exterior, mais desenvolvidos e com juros baixos há mais tempo. 

Além disso, os prêmios para alongar posições pré-fixadas ou indexadas à inflação estão em patamares recordes, outro ponto muito positivo para os investidores. E tudo isso deve favorecer quem tem carteiras equilibradas, mesmo que comece agora. O importante é dar o primeiro passo.

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