Por Luciano Sobral, em 14/12/2020

Um dos infinitos memes que ajudaram a tornar mais suportável este ano difícil mostra cenas do primeiro filme da franquia Os Vingadores (de 2012), com o Capitão América perguntando ao Brasil (encarnado em Bruce Banner/Hulk) como faria para não entrar em crise com o coronavírus. A resposta: “Este é meu segredo, capitão. Estou sempre em crise.”

“Este é meu segredo, capitão. Estou sempre em crise.”

De fato, desde perto do lançamento do filme, com o fim do grande ciclo global de commodities, o Brasil tem pulado de uma crise para outra – aí já contamos impeachment, recessão, greve de caminhoneiros, e, agora, uma pandemia. Depois de anos de instabilidade quase permanente, é muito difícil definir qual será a “normal” para qual a economia convergirá quando finalmente sair do olho do furacão.

No mundo dos preços ao consumidor, a inflação de 2021 pode ser vista como produto da correção de várias distorções temporárias que se acumularam ao longo de 2020, somado a um componente estrutural que vem sendo lentamente alterado durante esse período de crises sequenciais. Na NEO, acreditamos que, tudo considerado, caminhamos para um ano de IPCA subindo ao redor de 3%, o que fará com que outra normalização relevante para os mercados – a dos juros do Banco Central – possa ocorrer de forma bastante gradual, a partir da segunda metade do ano.

Dessas distorções, a mais notável é a dos preços de alimentos, que explicam praticamente toda a grande surpresa no IPCA dos últimos três meses de 2020: em setembro, o mercado (via pesquisa Focus, do Banco Central, 04/09/2020) esperava que o índice acumulasse variação de cerca de 1,8% no fechamento do ano. Agora, faltando apenas a divulgação de dezembro, essas mesmas expectativas estão em 4,21%. Nesse período, os itens classificados pelo IBGE como “alimentação no domicílio” tiveram alta de quase 10%, acumulando 21% em 12 meses – a maior alta desde 2003. 

Neste caso, felizmente, a tal normalização seria na direção de inflação mais baixa: choques em preços de alimentos raramente persistem por mais de poucos meses e não raramente precedem períodos de quedas nos preços. A intuição microeconômica vale aqui: preços altos, com o tempo, atraem mais produção (mais oferta) e substituição (menos demanda), empurrando preços para baixo ou, ao menos, contendo o movimento de alta. Esperamos que, ao longo de 2021, a alta em alimentação no domicílio desacelere significativamente, para perto de 5% ao ano.

Outra correção altamente esperada é nos preços que foram diretamente afetados pela pandemia, seja porque são regulados e tiveram reajustes adiados (como tarifas de eletricidade, anuidades de planos de saúde e mensalidades escolares) ou porque sofreram mudanças temporárias na procura (exemplo: aumento de busca de computadores para trabalho remoto) ou na produção (vide as várias notícias nos últimos meses sobre escassez e aumento de preços de matérias primas na indústria). Aqui, a resultante é de preços mais altos nesses itens, anulando, no índice de preços, parte da queda esperada na inflação de alimentos. 

O componente estrutural da inflação, que está por trás das chamadas medidas de núcleo, deve, na nossa opinião, permanecer. Dificilmente a retomada da economia ocorrerá com geração de empregos que rapidamente reponha as vagas perdidas com a pandemia ou compense a retirada do enorme volume de transferências do governo pagas em 2020. Com baixo crescimento da renda agregada e pouca pressão por aumentos de salários, os preços de serviços e outros bens devem ficar contidos, como estavam no pré-pandemia. 

Até a próxima manifestação do estado de “crise permanente” do meme, é para esse componente estrutural que o Banco Central deve direcionar a política monetária. Enquanto o desemprego alto persistir, os juros devem permanecer relativamente baixos. Quão baixos? Como dissemos acima, é muito difícil estabelecer o que é “normal” em uma economia que passa tanto tempo se recuperando de pancadas. Nossa estimativa é que a taxa Selic deve, ao longo dos próximos dois anos, refletir a meta de inflação convergindo para 3% e juros reais estruturais entre 2% e 3%, compondo, portanto, uma taxa nominal ao redor de 5,5%. 

O caminho até lá, partindo dos 2% atuais, pode ser demorado se de fato a recuperação da economia (e, sobretudo, dos empregos) for lenta. Pode ser acelerado em caso de derrapadas fiscais, dificultando ainda mais a retomada da atividade –por isso, entre outros motivos, acreditamos que não será o caminho a ser escolhido pelo governo. Tudo considerado, acreditamos que a taxa Selic terminará 2021 ao redor de 3% – ou zero, em termos reais. Temos pela frente, portanto, um período prolongado de juros excepcionalmente baixos, que deve favorecer setores da economia ligados a crédito (bens duráveis e imóveis, por exemplo) e contribuir com a recuperação do balanço das empresas que sobreviveram à “guerra infinita”, para tomar emprestado outro título dos Vingadores. 

“Estar sempre em crise” serve, ao menos, para evidenciar os aspectos mais resilientes da economia.  O Banco Central tem conseguido aproximar a inflação do centro da meta com juros em queda. A credibilidade resultante deve nos ajudar a atravessar mais um período difícil, de reconstrução e consolidação fiscal. Se isso parece desafiador agora, imagine com o entorno habitual de alguns anos atrás, com inflação e juros altos.

Luciano Sobral é economista-chefe da NEO Investimentos.

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