A renda fixa tirou um “período sabático”, mas não morreu

Nos últimos meses, o brasileiro acompanhou uma queda acentuada da Taxa Selic, índice que é referência para todos os juros praticados no país. Com esse índice em queda livre (confira quadro abaixo) e atingindo seu menor patamar histórico, há quem defenda que a renda fixa morreu, mas isso não é verdade. É o que defende Marilia Fontes, sócia-fundadora e analista em renda fixa da Nord Research. 

Em entrevista exclusiva para o blog da Pi, a especialista conta que a renda fixa pode até ter tirado um “período sabático”, mas não morreu. Além disso, ela fala sobre a expectativa da próxima reunião do Copom, explica o atual momento do Tesouro Selic e dá dicas de onde investir com a taxa de juros baixa. 

Nos próximos dias, o COPOM se reúne para definir a taxa Selic. Qual a sua expectativa para o resultado? Quais pontos são relevantes no discurso?

Marilia Fontes: Minha expectativa é que o Copom mantenha a Selic estável em 2% e não altere de forma relevante o discurso. As expectativas de inflação para este ano e o ano que vem ainda estão abaixo da meta, e mesmo com a aceleração recente dos números temos folga até que ela comece a incomodar. 

Nos últimos meses, com a queda da Selic, muito se ouviu falar que a renda fixa morreu? Isso é verdade? 

Marilia Fontes: A renda fixa como gerador de ganhos agressivos com marcação a mercado de fato ficará adormecida por um tempo. Todas essas questões de piora fiscal fizeram com que o mercado exigisse taxas mais altas do Tesouro para financiar a dívida. Esse aumento de taxa trouxe prejuízos de marcação a mercado. Mas a alta e queda das taxas é cíclica, e novas oportunidades podem voltar a qualquer momento. 

Eu diria que a renda fixa ativa tirou um sabático, mas não morreu. Agora, a renda fixa sempre servirá como controle de risco para qualquer carteira de investimentos. Mesmo diversificando sua carteira, você nunca irá deixar de ter uma parcela em ativos mais conservadores. E a renda fixa sempre irá te ajudar nisso. 

Nas últimas semanas, o investidor, que sempre viu no Tesouro Selic um porto seguro, viu a rentabilidade do investimento ficar no vermelho. Por que isso aconteceu? 

Marilia Fontes: Foi um movimento técnico, que aconteceu porque o Tesouro teve que emitir um volume financeiro muito grande, para pagar os gastos com a pandemia. O aumento dos leilões assustou o mercado, que não teve tempo suficiente para absorver esse lote maior, e acabou pedindo mais prêmio. As taxas agora já voltaram bem. Se o governo mantiver a âncora fiscal do Teto de Gastos, esses prêmios vão voltar completamente. 

Qual a importância da manutenção do “teto de gastos” para os investimentos em renda fixa? E qual a relação do atual cenário político está relacionado com a rentabilidade do Tesouro Selic?

Marilia Fontes: O teto de gastos é crucial, pois é a única forma de vislumbrarmos uma queda da dívida sobre PIB ao longo dos anos. Caso ele seja flexibilizado, a dívida pode seguir em um patamar crescente e até explosivo. Nenhum investidor em sã consciência financiaria um governo com dívida alta e crescente. Neste caso, teríamos problemas sérios de financiar a dívida, as taxas subiriam muito, como subiram em 2015, durante o governo Dilma. 

Uma das frases mais conhecidas do mercado financeiro é “nunca coloque todos os ovos na mesma cesta”. Como o investidor pode diversificar seus investimentos em renda fixa? 

Marilia Fontes: Eu gosto muito de diversificar entre emissores diferentes. O investidor pode usar o Tesouro Selic do governo, mas pode também usar os CDBs, LCIs e LCAs dos bancos. 

Além disso, temos também as debêntures, CRIs e CRAs das empresas que são excelentes formas de aumentar o retorno da sua carteira de renda fixa. Claro que tudo isso deve ser feito com uma análise criteriosa do risco de crédito desses emissores. Mas é possível achar boas taxas com riscos moderados. 

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5 comentários

  1. Excelente conteúdo, bem esclarecedor do porque as taxas aumentarem e ocorrer prejuízos na marcação a mercado e também o reforço de sempre manter investimentos em renda fixa como segurança.

  2. Sim a Marília Fontes é uma expert em renda fixa no Brasil e eu concordo com a posição colocada, estávamos mal acostumados com taxas de 1%nactenda fixa

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