A próxima oportunidade de investimento não é a última

por Oscar Camargo (CIO) e Bernard Tamler (Estrategista) da Gap Asset

A crise econômica decorrente do COVID-19 foi a mais rápida da história dos mercados financeiros recentes. Mostrou os primeiros sinais no início de janeiro, quando os mercados já voltavam suas atenções para os crescentes casos da doença na China. 

Com um mundo tão globalizado como o que vivemos, esperava-se, sim, que a doença se espalhasse para outros países. Na Gap, também entendíamos que a doença se espalharia. O que surpreendeu, contudo, foi a velocidade e a severidade das medidas de contenção e de combate ao vírus com a implementação dos lockdowns pelos principais governos do mundo. No carnaval, quando diversos governos europeus fecharam completamente suas economias, os mercados realizaram perdas de uma forma muito veloz, demandando do gestor de investimentos bastante discernimento e velocidade de reação. 

A GAP Asset, empresa com quase 25 anos no mercado, teve a experiência necessária para assimilar o panorama que se apresentava e a humildade e velocidade igualmente necessárias para alterar o cenário base de seus investimentos. Ao longo desse processo de decisão, o nosso gerenciamento de risco se mostrou imprescindível no manejo da crise de volatilidade dos mercados em consequência do avanço do COVID-19. 

Quando a volatilidade se eleva, é importante destacar que as posições se elevam na mesma magnitude e o gerenciamento de risco se mostra particularmente importante na administração dos ativos para preservação do capital.

A agudização da crise em março nos mostrou que viveríamos um “cenário de guerra” e que enormes gastos fiscais por parte dos governos seriam necessários. A política fiscal, nesse contexto, se mostrou mais importante que a política monetária. Não é suficiente, por exemplo, para um dono de restaurante apenas um financiamento mais barato (via taxas de juros mais baixas) se não há clientes em seu estabelecimento. Para sobreviver à crise, é necessária uma ajuda mais direta do governo. 

Nesse sentido, percebemos desde o início que os países desenvolvidos estariam mais preparados para lidar com a crise, na medida em que teriam mais espaço para aumentar seus gastos do que países emergentes. Esse maior espaço fiscal se justifica tanto pelo tamanho das dívidas como pelo fato de que países desenvolvidos são detentores de moedas de reserva de valor do mundo (por exemplo, o dólar americano). 

Separar a crise em capítulos foi um outro grande acerto da nossa equipe. Com a volatilidade tão elevada, o cenário de investimentos se altera significativamente a cada momento conforme o desenrolar dos diversos acontecimentos e notícias. Por exemplo, a saída do ex-Ministro da Justiça Sérgio Moro, ao fim de abril, causou enormes incertezas internas quanto ao Brasil. 

A nossa escolha, nesses momentos de grande incerteza, é de redução do portfólio como um todo, nos permitindo analisar com a segurança da preservação do capital qual será a direção mais favorável. Se entendermos que é o caso, depois retornamos para as posições, mesmo que a preços menos atrativos. Gerenciamento de risco também é preservação de capital e esse conceito tem nos permitido navegar com consistência por quase 25 anos de história.

Costumamos dizer na Gap que investimentos não são uma corrida de 100 metros com barreiras, mas sim uma maratona. Investidores devem sempre se aproveitar do poder de composição do juro composto. 

Além disso, a próxima oportunidade de investimentos… não é a última! Isso quer dizer que na tomada de decisão sobre realizar, ou não, um investimento temos sempre em mente que novas oportunidades de rentabilização se apresentarão no futuro. Por outro lado, perdas podem se tornar permanentes. Drawdowns (perdas em relação ao pico) são indicativos relevantes da qualidade de uma gestão.

 Afinal, tão importante quanto o ponto final é o caminho percorrido até chegarmos ao nosso destino. Por fim, escolher o tamanho correto dos investimentos é tão ou mais importante quanto a correta visão do cenário. As oportunidades no mercado são escassas e é fundamental aproveitá-las de forma eficaz e com a exposição adequada. 

Olhando para o futuro, em pouco menos de 40 dias os Estados Unidos irão decidir o seu próximo presidente. Ou melhor, esse processo já foi iniciado. Com o COVID-19, muitos cidadãos americanos irão votar por correio para evitar sair de casa, e em alguns Estados essa modalidade de votação já está aberta. Democratas e republicanos nunca estiveram tão distantes no espectro político como em 2020. Antes de entrar na análise das diferenças de políticas econômicas do presidente Trump e de seu concorrente, o ex-vice presidente, Joe Biden, é importante destacar a relevância para os mercados do voto por correio. 

Esse fator pode gerar enorme volatilidade e incerteza nos mercados, principalmente nos dias e semanas seguintes ao dia 3 de novembro, data oficial das eleições. Se de um lado os democratas acreditam na severidade do vírus e devem votar em massa por correio, de outro lado republicanos devem votar presencialmente no dia 3 de novembro. Essa distinção de comportamento entre democratas e republicanos já tem ocorrido nos comícios (virtuais vs presenciais). 

Assim, é possível que o resultado das eleições demore dias para ser efetivamente conhecido. E se a disputa for acirrada, também pode haver judicialização Estado a Estado para saber quem foi o vencedor.  

Do ponto de vista econômico, a expectativa é que o ex-vice presidente, Joe Biden, se eleito, tentará elevar os impostos corporativos que foram cortados pelo presidente Trump em 2017. Certamente é algo que prejudicará as empresas americanas e a bolsa. Por outro lado, a relação de Biden com a China provavelmente seria bem menos bélica do que a política que o presidente Trump tem adotado nos últimos anos. 

Além disso, um potencial governo Democrata deve trazer um novo pacote de estímulo fiscal. Caso Trump seja reeleito, a relação dos Estados Unidos com a China deve ficar ainda pior nos próximos anos, algo negativo para os mercados. Trump, por outro lado, deve manter os impostos reduzidos e continuar com a desregulamentação já ocorrida nos últimos anos, positiva para os mercados. Em suma, ambos os candidatos possuem fatores positivos e negativos para os mercados e em todos os cenários existem oportunidades de investimentos.

Como navegar por esse evento tão importante que decidirá a política econômica americana e global dos próximos anos e que, ao que tudo indica, se definirá em um contexto de muita volatilidade? A curto prazo entendemos que uma diminuição das posições de maneira geral pode se mostrar correta até que se tenha uma visão mais nítida do horizonte. Trata-se do que referimos acima como gerenciamento de risco. 

Se 2020 ensinou algo aos investidores é que os hedges  (proteções) nem sempre funcionam e um cuidado especial deve ser tomado no portfólio de investimentos. De fato, o único hedge realmente eficaz é uma redução na posição em si. 

Então, assim como o capitão de um navio deve, por vezes, aguardar as condições climáticas adequadas para retomar sua viagem, os gestores de investidores devem ter cautela e reduzir suas posições nesse momento de grande incerteza. 

O próximo horizonte de eventos político-econômicos, as eleições americanas, com certeza trará boas oportunidades de investimentos, é apenas uma questão de sabedoria e paciência para identificar a hora certa de retomar a viagem. 

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